Por que o adicional de periculosidade é o que menos importa nas atividades perigosas, e o exemplo de Flávio Peralta

Por que o adicional de periculosidade é o que menos importa nas atividades perigosas, e o exemplo de Flávio Peralta

Tenho tratado a respeito de perícias de insalubridade e periculosidade, por ser uma atividade da SST que considero ter bom retorno financeiro, e que tem um fundamento nobre: encontrar a verdade. (pra saber um pouco mais sobre as atividades do perito, é só visitar o artigo aqui).

Mas a própria existência dessas perícias se dá devido à exposição de um trabalhador a riscos demasiadamente elevados:

No caso da insalubridade, a exposição a agentes de risco que comprovadamente têm o potencial de prejudicar a sua saúde. No caso da periculosidade, a exposição do trabalhador a riscos que podem, em um único momento, ceifar-lhe a vida ou deixá-lo com sequelas muitas vezes irreparáveis.

[Tweet “Trabalhar como perito tem fundamento nobre, e bom retorno financeiro”]

Foco na Prevenção x Foco na Remuneração

A questão é que no Brasil existe uma triste insistência em enfatizar apenas o financeiro, através da criação de benefícios e mais benefícios, e toda forma possível de colocar mais dinheiro no bolso.

Acontece que, ao adotarmos este tipo de pensamento em nossa cultura, acabamos por abrir mão de valores muito mais importantes. Abrimos mão de valorizar a vida e a integridade física do trabalhador, e acabamos por considerar apenas o fator financeiro.

E isso não é exclusividade dos empregadores, falo aqui da sociedade como um todo. Ao questionarmos às pessoas se desejam receber um adicional de pagamento, seja adicional de insalubridade ou adicional de periculosidade ao fim do mês, quase que em sua totalidade elas responderão que sim. Estamos deixando de considerar o que vem junto desses adicionais.

[Tweet “Devemos enfatizar a prevenção, e não apenas o retorno financeiro”]

O Adicional de Periculosidade e o Risco Que o Acompanha

O pagamento do adicional de periculosidade especificamente, implica na existência de um trabalhador correndo seríssimo risco. E quando focamos tanto no fator financeiro, acabamos não aplicando atenção e esforço suficientes na prevenção em si. Damo-nos por satisfeitos com a remuneração, e esquecemos do mais importante – a prevenção.

Ora, o direito ao recebimento do adicional de periculosidade pode ser posteriormente pleiteado na justiça – obviamente, observando-se os prazos legais. Já um sinistro que ocorra por falta de investimento e zelo na prevenção, não tem retorno. O trabalhador que passe por esse evento, certamente concluirá que não existe adicional que compense.

Investimentos em equipamentos (EPIs e EPCs) e treinamentos adequados, conscientização dos colaboradores, e desenvolvimento da cultura de prevenção são absolutamente necessários para garantir a saúde e a integridade física dos trabalhadores.

[Tweet “Acidente só dá pra prevenir antes dele acontecer: não tem como voltar no tempo”]

Eletricista Periculosidade no Setor Elétrico

Periculosidade no Setor Elétrico

O Anexo 4 da NR 16 trata das Atividades e Operações Perigosas com Energia Elétrica. Por suas características, lidar com a eletricidade pode ser extremamente perigoso, e muitas vezes fatal. Já a norma que trata da segurança nos trabalhos em eletricidade, é a NR 10.

O pagamento do adicional de periculosidade para quem trabalha com eletricidade foi um tema muito controverso. Isto porque existiram muitas discussões a respeito da aplicação do adicional apenas aos trabalhadores que estão dentro do SEP (Sistema Elétrico de Potência), ou se a percepção ao adicional se estenderia aos demais trabalhadores do setor elétrico.

Hoje, o entendimento é de que qualquer trabalhador que labore em situação análoga à dos envolvidos no SEP, com os mesmos riscos existentes ao trabalhar com a eletricidade, faz jus à percepção do adicional de periculosidade.

[Tweet “Trabalhador em situação análoga a dos que trabalham no SEP, devem receber adicional”]

Esse é um tipo de trabalho que requer uma série de procedimentos de segurança específicos, para cada tarefa que é realizada. Qualquer passo de procedimento que for desconsiderado, qualquer equipamento que não estiver em pleno funcionamento e excelente estado de conservação, pode gerar um resultado desastroso.

Todos os fatores citados explicitam que esse é um setor crítico, que exige muita atenção aos treinamentos a que os trabalhadores são submetidos, bem como ao controle dos procedimentos e equipamentos utilizados.

Gostaria aqui de exemplificar com a história de um homem que admiro muito, pela sua força nos desafios que enfrentou, o palestrante Flávio Peralta:

Depoimento Flávio Peralta

O Acidente de Flávio Peralta

No acidente do Flávio, houveram falhas de comunicação entre os membros das equipes, e erros foram cometidos na realização dos procedimentos – o próprio Flávio reconhece tudo isso, em suas palestras.

Ele relata ainda que os equipamentos a sua disposição estavam em péssimo estado de conservação. Com a eficácia dos equipamentos reduzida, lidamos com um cenário inaceitável para as operações que realizava.

A história do palestrante Flávio Peralta é para mim, um exemplo gritante de uma triste consequência gerada pela falta de investimento em equipamentos, treinamentos e cultura de segurança e prevenção.

Como praticamente todo acidente de trabalho, poderia ter sido evitado. Como tudo na vida, não podemos voltar atrás. Agora, a bandeira carregada pelo Flávio, é a de conscientizar um número cada vez maior de pessoas acerca da importância de mudarmos nossa postura, e colocarmos a segurança em primeiro lugar. [Para visitar o site do Flávio e da Jane, o Amputados Vencedores, basta clicar no link.] [Tweet “Devemos conscientizar as pessoas da importância da segurança no trabalho”]

Formigas Trabalhando Trabalho de Formiguinha

Cultura de Segurança, Um Trabalho de Formiguinha

Além de tudo o que foi exposto, existe uma fiscalização deficiente. Apesar de eu acreditar que deve ser mantida uma fiscalização mais eficiente da segurança no trabalho, não sou ingênuo para crer que isso por si só bastaria. A redução (ou idealmente, quase eliminação) dos acidentes é um processo, e este é um processo que envolve a mudança da mentalidade de todos nós.

O poder público não é eficiente o suficiente (ou talvez até mesmo interessado) para realizar essa mudança. No meu ponto de vista, os responsáveis por promover e liderar esse processo somos nós – profissionais de SST. Somos os únicos com o conhecimento necessário e o acesso direto aos trabalhadores, para dialogar e conscientizar todos, um a um.

Lembro agora de um comentário que recebi em um outro artigo, afirmando que nosso trabalho como profissionais de segurança é um “trabalho de formiguinha”. E é justamente esse o caso, estamos envolvidos em um longo processo, que obrigatoriamente precisa de muitos e muitos profissionais verdadeiramente comprometidos.

Não vejo outra forma senão essa para realizar tal tarefa, então meu convite é: mãos na massa, e vamos seguir em frente.

Criança sobre palestra de flávio peralta do amputados vencedores

E você, o que acha da história do Flávio Peralta, e da importância de focarmos na prevenção? Participe, deixe seu comentário abaixo!

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